Fomos demitidos por uma questão política da noite para o dia”, desabafa servidora da AADESAM
Funcionários denunciam demissões em massa, alegam tentativa de assinatura de documentos com data retroativa e relatam clima de indignação na agência do Governo do Amazonas
Na manhã desta segunda-feira (7) foi marcada por revolta, choro e pedidos de justiça na sede da Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (AADESAM), em Manaus. Servidores demitidos participaram de um protesto em frente à agência e denunciaram irregularidades durante o processo de desligamento.
Os trabalhadores acusam a AADESAM de tentar fazer com que os funcionários assinassem documentos de rescisão com data retroativa, prática que viola a legislação trabalhista. Denúncias apontam também que uma funcionária grávida e outros em tratamento de saúde foram demitidos de forma sumária.
Em vídeos gravados durante a manifestação, os servidores cobram respeito, transparência e justiça. Entre lágrimas, muitos relatam o sentimento de abandono após anos dedicados ao atendimento da população mais vulnerável do Amazonas.
A servidora Tábita, contou que durante cinco anos esteve à frente do programa Prato Cheio, na comunidade Rio Piorini.
“Eu trabalhava no Prato Cheio do Rio Piorini. Estava há cinco anos fazendo trabalho lá social. E assim, nós não fomos demitidos por incompetência profissional. Nós fomos demitidos por uma questão política da noite para o dia. E para piorar a situação, eles querem que nós assinássemos esse documento com a data do dia 3, hoje é o dia 7, entendeu? É um absurdo.”
Segundo ela, além da surpresa da demissão, existe a preocupação com o pagamento das verbas rescisórias.
“Nós conversamos com alguns funcionários que já tinham sido demitidos e eles estão há dois meses a se receber. Com essa demissão em massa, como é que nós vamos ficar? Como é que vai ser? Então, estamos preocupados”, disse.
A servidora também lembrou que participou da campanha eleitoral do atual governador e afirmou sentir-se traída pela forma como os trabalhadores estão sendo tratados.
“O atual governador Roberto Cidade, nós fizemos campanha para ele, demos o melhor. Se vocês forem na comunidade do Rio Piorini e também do Parque São Pedro, vocês vão ver as ações que a gente fazia. Ações sociais, doação de roupa, porque o Prato Cheio não ofertava só alimento para a população. Ofertava mais que isso. E agora a gente está sendo tratado com falta de dignidade. Nós, como profissionais, como servidores, merecíamos mais respeito, dignidade, no mínimo.”
Mesmo diante da demissão, ela afirma que o maior problema não é perder o emprego, mas ser obrigada a assinar um documento com dados falsos.
“Tudo bem, dar a minha conta. O que eu posso fazer? O problema todo é que eles querem que a gente assine numa data que não corresponde. Pedimos que eles, no mínimo, nos deem a dignidade de assinar na data de hoje, que é a data que eles estão nos demitindo. É isso.”
Outra servidora, que preferiu não se identificar, também fez um relato emocionado sobre o momento vivido pelos funcionários.
Segundo ela, a convocação aconteceu na noite de sexta-feira e, ao chegarem à AADESAM, os trabalhadores se depararam com documentos contendo datas anteriores ao comparecimento.
“Fui notificada na sexta-noite, e nós viemos para cá e, chegando aqui, querem nos fazer assinar uma demissão com datas retroativas, com datas anteriores. Nós estamos pegando a conta no dia de hoje, é hoje que estamos aqui. Nós trabalhamos com pessoas. Nós demos vida. Eu trabalho aqui há quatro anos”, desabafou.
Em um dos momentos mais emocionantes do depoimento, ela descreve situações enfrentadas diariamente durante o trabalho social.
“Quando nós estamos lá na ponta, nós que sabemos o que passamos com o morador de rua, com a mãe com quatro, cinco filhos que não tem dinheiro, que não tem moradia, que se alimenta no Prato Cheio. Muitas vezes nós tiramos do nosso bolso para sustentar essas pessoas.”
Em seguida, ela faz um apelo direto ao governador Roberto Cidade.
“Governador, o que vocês estão fazendo é contra a comunidade da nossa capital, de Manaus e do Amazonas. Esse recado é para o senhor. Eu gostava muito do senhor. Eu trabalhei pelo senhor. Eu te defendi. Eu não me troquei por nenhum dinheiro.”
Mesmo adoecida, a servidora afirma que continuou trabalhando até o último momento.
“Isso é um desgaste. Tem pessoas aqui, mães com bebê de colo. Tem pessoas aqui que estão de licença hospitalar. Tem pessoas que estão doentes. Eu, por acaso, estou doente. Estou há quinze dias doente. Mas não deixei um dia de trabalhar, porque eu trabalho com a comunidade. Eu trabalho com pessoas, com o ser humano que precisa do nosso apoio.”
Enquanto aguardavam atendimento na sede da agência, dezenas de trabalhadores protestavam e cobravam explicações da direção da AADESAM.
O que é a AADESAM?
A Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (AADESAM) é uma entidade do terceiro setor instituída pelo Governo do Estado do Amazonas para executar programas e projetos públicos, funcionando como braço operacional da administração estadual em diversas políticas públicas. Atualmente, a agência é presidida pelo ex-vereador William Abreu.



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